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A Casa do Zezinho está de luto

andersonvom

Ontem a noite fui surpreendido com um comentário sobre a Mansão Macêdo. Enquanto respondia, pensava justamente que não vemos grandes obras visando a beneficiar muitos e quantos estão em situação pior que a nossa. Quando chego hoje no trabalho vejo essa notícia sobre a Casa do Zezinho: um dos garotos de lá, hoje com 23 anos, foi assassinado nas Casas Bahia por um segurança terceirizado da loja.

Está tudo muito errado. Como pode tanto preconceito ainda existir atualmente? Tanta violência gratuita! Eu só consigo sentir revolta e vergonha de viver nesse meio. Sim. Estamos no mesmo meio e somos todos culpados, direta ou indiretamente, alguns mais e outros menos, seja por atos, palavras ou omissões. Segue a descrição dos fatos pelas educadoras da Casa do Zezinho bem como o relato da notícia na mídia aqui, aqui e aqui. Convido cada um a refletir sobre a maneira como vocês vêem as pessoas que tem menos condições que vocês, aquelas que deveriam ser “semelhantes” mas acabam sendo vistas como bem diferentes. Para ajudar, segue também um vídeo no final.

Nota de repúdio e indignação

A Casa do Zezinho está de luto. A ONG Casa do Zezinho mostra seu profundo repúdio e indignação. Um dos seus filhos queridos, o jovem Alberto Milfont Jr, (23), foi barbaramente assassinado dentro das Casas Bahia na Estrada de Itapecerica por um segurança terceirizado, que trabalha nessa instituição, na segunda feira por volta das 16 horas. O segurança, em sua defesa, alega que agiu assim porque simplesmente o jovem estava mal vestido.

O jovem Alberto, mal vestido, morre com a nota fiscal, com comprovante de compra nas mãos.

Enquanto aguardava dentro da loja, “roupa de trabalhador”, sua esposa Darilene (22) voltava do caixa aonde fora pagar a prestação da compra de um colchão. Foi abordado pelo assassino, terno preto. Depois de um bate boca ligeiro o segurança saca da arma e atira à queima roupa. O jovem tomba sem vida.

Suas últimas palavras: Sou cliente, não sou ladrão!”. A partir daí se calou. Calou da mesma forma como estamos calados, sufocados há 400 anos. Que grande equívoco este país!

Mal vestido, roupa de trabalho, é um sinal verde para o braço armado da sociedade, o assassino pago para atirar. Alberto deixa esposa e um filho de 5 meses. Alberto deixa morta a remota esperança de milhares de jovens brasileiros. Estudar pra que? Trabalhar pra que? Ser honesto pra que? Brasileiros alfabetizados, respondam honestamente essa pergunta!

O menino brincalhão, comprido e de pernas finas entrou para a Casa do Zezinho aos 10 anos. Sua turma do Parque Santo Antônio já estava todinha ali. Vai ser muito legal, ali vamos nos divertir para valer. O jovem deixa excelentes recordações em toda nossa comunidade, onde permaneceu como um membro muito querido até 2003.
Estava de casamento marcado com a jovem Darilene, com quem tinha um filho de apenas 5 meses.

Suspeita e pobreza sempre juntas na nossa história.

Nenhum (a) jovem “mal vestido” (leia-se moreno, pardo) da periferia ousa sequer pisar num shopping de grife da cidade sem levantar as mais alarmantes suspeitas. Nenhuma placa, nenhum sinal explcita essa indesejabilidade, como faziam com os negros os norte-americanos. Diferentemente dos americanos, aqui o jovem da periferia já traz gravada na carne, na alma, essa interjeição.

Nenhuma revolta, nenhuma vingança organizada. Nada que a sociedade deva se preocupar. Apenas o destempero de um segurança idiotizado, uma peça para reposição. No Cemitério São Luiz o murmúrio surdo da mãe e da jovem esposa.

Dentes cravados, os jovens cabisbaixos que acompanham o enterro trazem o sangue nos olhos. – O mano Alberto subiu!

Com muita raiva seguimos com eles, solidários, para tentar preservar essa auto estima
tão covardemente destruída desde o seu nascimento nas favelas.

A vitória da morte exercida com eficiência certeira desde sempre no país pelo braço armado contratado pela sociedade dominante e pelos seus comparsas que dominam toda a estrutura de poder do estado.

Pras Casas Bahia deixamos como lembrança o carnê saldado com a honra e a dignidade de um jovem trabalhador.

Adeus mano Alberto!

Por que algumas crianças são problema nosso e outras não? Pense nisso.

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  1. Flavio Studart
    12/Nov/2008 às 13:09 em 13:09 | #1

    Isso não precisa de comentarios… o que ta ai ja diz tudo.

    Não sei informar ao certo, mais tenho certeza de que isso não é o primeiro caso que acontece nessas situações. Casos como esse são para ser lembrado eternamente como prova do resultado de nossas atitudes.

    Vitima de preconceito porque estava mal vestido… ridiculo!

  2. 12/Nov/2008 às 15:08 em 15:08 | #2

    Isso me lembra uma frase e uma música de Alisson Silva que dizia:

    “Está tudo tão trocado. O errado certo, e o certo errado, que de natural até deixa de ser”

    =/

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